terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

As loterias são justas?

Já há algum tempo os economistas tem se debruçado sobre a microeconomia da redistribuição. É um tema muito importante, porque ajuda a entender porque os governos democráticos são mais ou menos redistributivos. Via de regra o que se sabe é que as preferências variam de acordo com diferentes grupos sociais: i) os mais ricos tem aversão à distribuição; ii) as mulheres são mais favoráveis; iii) o efeito da educação, em geral negativo, é ambíguo por causa das ideologias de esquerda que favorecem; iv) é menos favorável naquele com expectativa de aumento de renda e otimista; v) negros a preferem mais do que os brancos, assim como os desempregados; vi) jovens e idosos preferem distribuição, quando comparado às pessoas de meia idade; vii) pessoas com histórico de dificuldades nos últimos anos (desemprego, doença, morte e separação) preferem a redistribuição; viii) ser de família religiosa favorece a redistribuição; ix) viver em contexto de crime e desigualdade também favorece; x) por último, depende de como as pessoas atribuem o sucesso, como se proveniente da sorte ou do esforço. Além da questão das escolhas, não se pode esquecer que mesmo os mais ricos podem defender algum grau de redistribuição, tendo em vista as externalidades educacionais e de segurança que produz.
As loterias se impõe como um desafio teórico para as modelagens microeconômicas. Se assumirmos que não há corrupção, pode-se dizer que são justas sob certo prisma, porque todos concorrem de forma igual. Pobres ou ricos, brancos ou negros, homens e mulheres todos são igualados pela aleatoriedade dos números. Por isso não se vê críticas de que alguém ganhou o prêmio injustamente. Como diz um dos motes da loteria brasileira, "para a sorte todo mundo é igual". A campanha publicitária da Caixa Econômica Federal, deste modo, abraçou a ideia de que apostar na loteria é uma ação livre da desigualdade e aberta a todos de forma transparente.
Mas a loteria é, em si, um instrumento de desigualdade. Ela piora o Índice de Gini, que avalia a má distribuição de renda, porque ao invés de aproximar o indivíduo sorteado para a média de renda da população, coloca-o, provavelmente, ainda mais distante do ponto central — ainda que em outra direção. De forma estranha, a loteria promove a desigualdade de forma justa, mesmo que por meio de um mérito curioso, a pura sorte.
A ideologia capitalista vende a ideia de que o sucesso das pessoas se baseia no trabalho e no esforço. O papo por vezes furado não convence e muita gente pensa diferente, acreditando que as pessoas que enriquecem ou se dão bem assim o fazem porque possuem algum privilégio — são herdeiros, têm cônjuges ricos, parentes abastados ou acesso aos círculos de poder, além da oportunidade e imoralidade de se corromperem — ou simplesmente são sortudas.
Como vimos, pessoas que atribuem o sucesso em um grau maior à sorte e não ao esforço são mais favoráveis a redistribuição. Nesse caso, seriam elas contra as loterias, por que são instrumentos de concentração de renda? Parece-me que não. Esse tipo de gente, é provável, é contra a injustiça mais do que a má distribuição dos recursos. Deseja-se redistribuir para consertar as injustiças do sistema. Mas se existe algum método legítimo de concentrar renda, talvez ele não seja condenável ou possa ser até mesmo desejável, desde que justo.
O mesmo raciocínio talvez possa ser estendido aos outros grupos sociais que são favoráveis a uma melhor redistribuição. Pobres, mulheres, negros, desempregados e jovens, por exemplo, podem preferir a redistribuição pela via da defesa de uma sociedade mais justa com oportunidades menos desiguais, e não por uma defesa da igualdade de renda dos cidadãos. A luta talvez seja pelas regras do jogo e não por seus resultados. Isso quer dizer que ao defenderem a redistribuição, estão, em verdade, defendendo melhores oportunidades de acesso a um grau superior na escala social. A loteria é uma oportunidade aberta a todos.
E o raciocínio inverso talvez seja válido. Brancos, homens, ricos, empregados e profissionais experientes são em maior grau contrários à redistribuição por concordarem com as regras atuais do jogo e as considerarem justas. Talvez esse grupo seja crítico das loterias, por promoverem um método de desigualdade baseado na sorte, que consideram inválido. Pessoas que acreditam nos méritos efetivos do seu sucesso não querem que alguém suba a escala social por pura sorte, por considerarem tal via "injusta", por mais estranho que tal argumento possa parecer, tendo em vista que qualquer um pode participar das loterias em condições iguais.
Novas pesquisas precisam confirmar essas hipóteses. Enquanto isso, resta-nos especular. Pessoas religiosas são a favor da redistribuição, mas provavelmente contra as loterias, por razões culturais. As religiões principais são críticas dos jogos e da vontade de alguém em enriquecer e ter sucesso. Mesmo assim podemos imaginar as vertentes neopentecostais afirmando a validade das loterias por serem justas e equivalentes a bençãos divinas.
Eu, particularmente, penso que a maioria das pessoas toleram bem a desigualdade de renda, em especial quando veem méritos nas diferenças. Aceita-se que alguém que trabalhe muito ganhe mais e tenha mais coisas do que alguém que trabalhe pouco e seja preguiçoso. São poucos aqueles que prefeririam uma igualdade rígida e as péssimas experiências de socialismo real apenas comprovam o lado ruim do rigor distributivo. Mas quase todo mundo quer ver um sistema justo. A sociedade se divide nesse ponto, pois achar que o mundo é justo depende muito de como você está inserido no sistema. Assim, a loteria, na opinião dos injustos, é um instrumento de concentração de renda justo .

As loterias poderiam ser subsidiadas?

Hoje em dia os prêmios das loterias são objeto de pesados impostos em todas as partes do mundo. A princípio, tal escolha de política econômica parece razoável, em linha e nos mesmos moldes da taxação sobre cigarros e álcool. A sociedade não quer, em tese, que as pessoas fumem ou bebam, porque desse modo elas podem trazer externalidades negativas — prejuízos que serão coletivamente distribuídos. Um fumante ou um alcoólatra cedo ou tarde ficarão doentes e o custo de seus tratamentos será incorporado pela rede de saúde pública e socializado. Além disso, outras pessoas não querem compartilhar o risco de estar ao lado de um bêbado ou cruzar a frente de seu carro, tampouco inalar a fumaça cancerígena dos cigarros. Mas o jogo é bem diferente e ainda assim é colocado junto aos demais vícios.
Nenhum jogador compulsivo traz prejuízos diretos para o estado e a comunidade. O único prejudicado é ele mesmo. Pode-se argumentar que alguém descontrolado traz problemas para a família e, portanto, o jogo deveria ser banido, mas é um argumento fraco, pois a sociedade, então, deveria ajudar a família e não interferir na vida do jogador. Pessoas briguentas, ex-presidiárias, desvairadas e indolentes também prejudicam a família, mas nem por isso a coletividade se propõe ajudar seus dependentes. A discussão irrompe numa querela entre direitos individuais e responsabilidade social da família, que dificilmente produz uma resposta convincente. Assim, é difícil sustentar, do ponto de vista técnico e filosófico, a proibição do jogo e por isso a maior parte dos estados os estimula por meio de um monopólio institucionalizado por argumentos tortos.
A função social da loteria é subestimada e raramente é motivo pra conversa. Você não precisa se debruçar sobre pesquisas oficiais de orçamentos familiares para descobrir quem são as classes que mais apostam e fazem suas figas. Basta se dirigir às filas de uma lotérica e analisar o perfil dos desesperados e dos esperançosos. Não são senhores de terno, empresários bem sucedidos pendurados no celular ou médicos vestidos de branco em intervalo de seus turnos. É o povão, como se diz. Mães que buscam um futuro melhor para seus filhos, avós altruístas, desempregados em desalento, fracassados, deprimidos e todo tipo de trabalhador que sabe que jamais conseguirá comprar uma casa ou um carro bom como aprendem ser o correto todo dia nas propagandas de telenovelas. Em suma, a loteria é a última saída, para não dizer a única saída para quem analisa e vê que o sistema é injusto e oferece poucas chances de subir seus degraus de mármore.
Economistas se acostumaram a achar que jogadores de loteria são burros, porque aceitam um retorno esperado de seus investimentos baixo e negativo. Mas esse é o preço da esperança, o custo para manter abertas as chances de uma vida melhor e correta. Todos, em maior ou menor grau, conhecem as probabilidades. Sabe-se que ganhar é um evento raro. Mas não há outras opções à vista e é preciso agarrar as oportunidades quando aparecem. Por isso tanta gente comparece às novenas lotéricas, afinal, o importante é não perder a fé.
Um governo de viés socialista, como a maioria dos latino-americanos de hoje em dia, que propõe, de forma recorrente, ações afirmativas e redistributivas, poderia reverter suas alíquotas incidentes sobre as loterias. Faria um bem social e ajudaria os mais pobres, que são penalizados atualmente pelos impostos regressivos na jogatina.
Atualmente 20% da arrecadação é destinado às despesas de custeio e manutenção de serviços. O governo poderia subsidiar esse valor sem maiores consequências para a estrutura dos jogos. O prêmio líquido poderia ser equivalente a 100% da arrecadação. Dessa forma, não haveria regressividade nos tributos, porque seriam eliminados. Também não seriam os pobres que custeariam as lotéricas, que hoje atuam como correspondentes bancários mas que dependem dos recursos arrecadados como taxas de administração dos jogos.
Um subsídio maior que as despesas seria, no entanto, mais complexo de ser implementado. Imagine que o prêmio líquido fosse equivalente a 120% da arrecadação. Nesse caso, pessoas ricas com baixa aversão ao risco seriam capazes de cobrir todas as combinações possíveis e, ganhando por certo, fariam a loteria perder sentido e ser destituída de sua função social.
Ainda assim, poderiam ser criadas regras que limitassem o volume de apostas por jogador. Isso não seria tão difícil de ser desenvolvido. O sistema hoje já possui o controle de todas as apostas que são feitas e seria simples exigir o CPF dos apostadores e vincular o prêmio exclusivamente ao apostador e não à posse do bilhete, como acontece hoje.
Cada pessoa teria um limite para apostar a cada concurso. Além de limitar a ação de jogadores compulsivos e impedir a entrada de oportunistas, não prejudicaria a população de baixa renda que geralmente faz jogos de custo baixo. Desse modo, a função social da loteria seria garantida e a grande maioria dos jogadores não seria importunada pelas limitações de gastos.
Ora, em última instância o governo nem precisaria de uma estruturada administrativa sofisticada para arrecadar as apostas. Se assumirmos que o importante para as pessoas é participar de uma chance aleatória, e que não há utilidade subjacente ao ato de acertar os números pelo simples prazer de tê-los adivinhado (imaginando um cenário de apostas sem dinheiro), então o governo poderia abolir todo o sistema e elaborar uma premiação periódica baseada no CPF das pessoas. O valor do prêmio seria equivalente a quantia necessária para garantir uma renda vitalícia para o sujeito nos padrões de classe média alta — algo na faixa de R$ 10 mil por mês ou um prêmio único de R$ 4 milhões (similar ao valor mensal se assumirmos um rendimento de 3% ao ano). Tal programa custaria aos cofres públicos pouco mais de R$ 208 milhões ao ano, valor de 1/3 de um estádio de futebol para a Copa do Mundo. E, mesmo  promovendo a desigualdade, seria justo, por mais contraditório que isso possa soar.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

Carteira recomendada para fevereiro de 2013

Um mês de poucas mudanças nas carteiras recomendadas. As alterações ocorreram para tornar as carteiras cada vez mais parecidas. Isso significa que pode ser arriscado querer inovar: ao menos em tese todos estão juntos em uma única direção. Se houver aportes de capital na bolsa, significa que se consegue um efeito manada muito significativo. O problema é que talvez não haja ingresso líquido, justamente pela percepção de falta de boas opções.
A Souza Barros continuou com AMBV4, CCRO3, LREN3, TOTS3 e fez uma troca conservadora, RADL3 saiu e entrou RENT3. A Ativa optou por ficar inativa: LREN3, AUTM3, ITUB4 e VALE5 foram mantidas, mas foi excluído o setor elétrico (vinha de COCE3 e EQTL3) para dar lugar a CSAN3.
A Planner deve ter trocado sua equipe, pois ao invés de apostas ruins fora da manada e de contra-tendência, como nos meses anteriores, decidiu-se pelo feijão com arroz: ODPV3, RENT3, ALPA4, MULT3 e TAEE11. Agora parece razoável. Lembremos que TAEE11 foi ideia da XP, que a manteve em carteira assim como a PDGR3, mas continua inovando com AEDU3, ARTR3 e CGRA4.
A única carteira petroteimosa é a da SLW, mas mesmo assim diminuiu sua exposição às commodities com a exclusão de Vale e Gerdau. Tornou-se uma carteira de mercado interno: PETR4, RAPT4, NATU3, BVMF3 e AMBV3.
A Octo continua com medo de desgrudar do Ibovespa: VALE5, SUZB5, ITUB4 e BRML3, como no mês anterior, mas corrigiu sua exposição exagerada ao minério, saindo GGBR4 e entrando HBOR3.
A paixão pela Kroton ainda arde na carteira da Santander (PCAR4, KROT3, KLBN4, EVEN3 e VALE5) e da Geração Futuro (VALE5, KROT3, BVMF3, UGPA3 e LREN3). E a teimoTIMosia é da personalidade da Bradesco (CSAN3, TIMP3, RADL3, DIRR3 e AEDU3) e da Citi (CCRO3, EVEN3 BBDC4, TIMP3 e BRML3). Ainda assim, são todas carteiras equilibradas.
Afora as carteiras publicadas no Valor, vale mencionar outras, como a ultra fundamentalista Socopa (GRND3, OSXB3, VALE4, CSAN3 e SUZB5), pela coragem da parceria com o óleo de Eikex, a despeito do downhill. E a ex-campeã Geral, ainda patinando no ano novo (MDIA3, EZTC3, ALSC3, KLBN3, LREN3, MIL3, NATU3, SMTO3, LEVE3, VLID3), mas com uma carteira cristalina.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

O fim das aposentadorias

Escrever a respeito do fim das aposentadorias parece uma decisão proveniente de um pensador muito liberal, que aposta no sucesso das economias de mercado e dos mecanismos autorregulatórios. Mas a discussão é complexa e extravasa os embates típicos das correntes econômicas antagônicas.
Às vezes nos esquecemos o quão recente é a concepção de aposentadoria. Foi inventada, nos países ocidentais, depois dos anos 30 e consolidada somente na segunda metade do século XX. Até então, os familiares e as instituições de caridade cuidavam das pessoas idosas, que só paravam de trabalhar quando estavam incapacitadas.
Quando criaram a aposentadoria, era um excelente negócio para os governos: deram um presente para a população — a promessa de que a partir de algum momento todos estariam protegidos da penúria no final de vida quando o corpo e a mente impossibilitavam de trabalhar — e em troca arrecadaram recursos dos trabalhadores e passaram a gastar a vontade os novos impostos travestidos de contribuições.
Sempre se soube que o sistema previdenciário não se sustentaria no longo prazo. Assim como hoje se sabe que o meio ambiente não se sustenta no longo prazo. Em ambos os casos, o prazo era ou é longo demais para que se consiga juntar a força necessária para realizar mudanças. Ninguém quer abdicar de seu conforto presente em prol de um futuro desconhecido que parece muito abstrato e longe. E ninguém gosta de ser lembrado que existe a possibilidade de você esperar horas em uma fila de bilheteria de um show concorrido e o ingresso acabar bem na próximo da sua vez de comprar.
Conhecíamos uma variável, o padrão de queda persistente nos índices de fecundidade, que sempre ameaçou a sustentabilidade das aposentadorias e por si só já deveria ter sido suficiente para promover debates mais maduros a respeito do tema. Mas as discussões sempre forma emboladas e de difícil digestão: nunca se pode discutir apenas a aposentadoria, porque a conversa sempre extravasou para se pensar qual o papel do estado nas economias, se mínimo ou máximo. As respostas sempre foram polarizadas demais: ou não deveria haver garantia estatal para a aposentadoria ou o estado deveria assumir esse encargo em prol dos cidadãos. Mesmo quando se tentou achar meio termos — um arranjo em que se mescla um piso público e um complemento privado — o caminho intermediário não agradou nem a esquerda nem a direita. Nas disputas de pensamento econômico, nunca houve uma história de concessões.
Fatos novos, aos poucos, surgiram. Desde os anos 80, os estados se endividaram e perceberam que sua capacidade de se expandir e arrecadar mais impostos sem prejudicar demasiadamente a economia havia se deteriorado. A garantia das promessas dos anos dourados ficou muito cara e os governos passaram a enfrentar os dilemas que as restrições fiscais impunham no campo previdenciário. Era evidente, na maior parte dos casos, que as entradas e saídas dos caixas dos sistemas não se equilibravam.
As pessoas começaram a viver mais. Em primeiro, nos países ricos; algumas décadas depois, por todo mundo. Em paralelo, ninguém mais entendia a aposentadoria como uma segurança no final da vida para a eventual incapacidade de trabalhar. Deixou de ser vista como uma garantia de cinco a dez anos de vida digna mesmo com uma inserção de trabalho precária, quando muito, ou uma segurança perante a ameaça de invalidez. Agora as pessoas tinham a expectativa de viver mais vinte ou trinta anos, com qualidade de vida e se considerando livres do fardo do trabalho, quando poderiam gozar a vida tranquilamente. As promessas mudaram de significado. A aposentadoria deixou de ser uma ação de assistência social para se tornar o que se convencionou chamar de direito da classe trabalhadora.
A situação de desequilíbrio se agravou após a crise de 2008 na Europa. Os países que serviam de modelo ao resto do mundo passam a ter sistemas insustentáveis. A dívida pública cresceu a taxas assombrosas e houve uma pressão de gasto maior sobre os recursos estatais. Além disso, entrou-se em uma era de baixos rendimentos das aplicações financeiras, sejam elas provenientes de títulos públicos ou privados. O fermento do bolo, que ajudava no equilíbrio atuarial das contribuições e retiradas, estragou.
Por último, mas não menos importante, os valores em relação ao trabalho mudaram. Aposentar-se passou a ser, em muitos casos, para muitas pessoas, um problema e não uma solução. Nos acostumamos a viver em torno do trabalho: é ele quem dita como usamos o nosso tempo e conforma nossa sociabilidade. Quando não se trabalha, muitos são aqueles que não sabem o que fazer e invariavelmente são acometidos pela solidão.
Os aposentados de hoje demandam trabalhos. Claro que não os penosos e árduos, se puderem escolher. Optam por trabalhos criativos, na maioria das vezes voluntários, nas mais diversas áreas que gostariam de ter desenvolvido mas até então não desenvolveram, como nas artes, na educação, nas aventuras e no conhecimento. O fato inegável é que eles estão muito próximos do universo do trabalho. E não há outro jeito de se usar bem o tempo e de ter convívio social sadio na contemporaneidade.
Com regimes de trabalho mais flexíveis, a tendência é que a grande maioria das pessoas opte por conciliar a renda de alguma forma poupada durante a vida, de modo privado ou estatal, com rendimentos provenientes de trabalhos não extenuantes, que exijam menos horas, e que sejam compatíveis com a idade em que a pessoa se encontra.
Este é, ao meu ver, o fim da aposentadoria como nós a conhecemos. A geração mais nova nem entenderá esse conceito como um prêmio, como muitos entenderam até hoje. Aposentar-se passará a ser cada vez mais parecido com o conceito de ser "encostado" ou "se encostar": um recurso assistencial para aqueles que não tem mais condições de viver no mercado de trabalho ou empreender seus próprios negócios. Portanto, um regime híbrido, em que um piso salarial dado pelo estado garante a subsistência e a própria pessoa deve ser responsável por sua complementação, parece inevitável. Nesse sentido, a aposentadoria, enquanto conceito, voltaria às suas origens, como uma iniciativa da assistência social, e não como um programa elaborado para possibilitar as pessoas não mais trabalharem a partir de uma idade arbitrariamente fixada.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Melhor título do Tesouro Direto para janeiro de 2013

A ata da reunião do Copom só saiu hoje mas confirma uma possível mudança de rumos na política monetária. As autoridades reafirmaram o compromisso do Banco Central com as metas da inflação e prometem gerenciar as taxas de juros para controlar os preços. O contrato de janeiro de 2014 está em 7,22, enquanto janeiro de 2017 é de 8,71% e janeiro de 2021 é de 9,42%. Eu ainda duvido que Dilma sancione o aumento da taxa de juros. É ver para crer.
Nunca levamos muito a sério as metas de inflação no Brasil. As metas fiscais eram perseguidas com mais compromisso, mas agora nem essas foram mantidas. Por que deveríamos pensar que o governo tem um novo compromisso com a inflação? O nível de aumento de preços ideal não depende das metas fixadas, mas sim da tolerância da população emergente quanto as variações de suas cestas de consumo. Enquanto houver ganho real de poder de compra, o governo não se preocupará.

Em minha humilde opinião, deveríamos olhar nossos (cada vez mais) irmãos europeus para ver como pode ser rápida a deterioração do quadro fiscal. Falta aparecer algum profeta influente, um Roubini tupiniquim, alertando para esse risco. Se isso ocorrer, os prêmios demandados pelos compradores dos títulos de longo prazo podem aumentar rapidamente, piorando a rentabilidade daqueles que tem esses títulos em carteira.
Como as incertezas estão, aos poucos, se firmando no horizonte, o melhor é se refugiar nas LFTs ou nos títulos indexados ou prefixados de curto prazo (até 2017).

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Carteiras recomendadas para janeiro de 2013


Aproveito o texto do último mês, ajustando-o.
A campeã Souza Barros, nossa preferida em 2012, continua em sua toada de mercado interno, com AMBV4, CCRO3, LREN3, TOTS3 e RADL3. No mês passado, minha única objeção era Tractebel, pelos mesmos motivos que rejeito a Coelce — não há garantia que o apetite interventor do governo tenha se encerrado. Não à toa, saiu da carteira. Entraram ações caras no lugar, mas prudentes.
A cearense COCE5 saiu da carteira da Ativa, sendo substituída por EQTL3, junto das mantidas LREN3, AUTM3, ITUB4 e VALE5, para não escapar demais do Ibovespa. A carteira ficou mais diferente da SLW (PETR4, RAPT4, VALE5 mantidas, GGBR4 no lugar de BRFS3 e BVMF3 no lugar de COCE5), que ficará ainda mais colada ao Ibovespa.
A XP segue sui generis, com TAEE3, PCAR4, BRSR6, CSAN3 e PDGR3. Continua arriscada como  nos meses anteriores.
Continua curiosa a carteira da Planner, baseada em contratendência. Excluiu Totus e OHL, acrescentando Gerdau e Hering, além de PETR4, EZTC3 e FLRY3. Do lado oposto, a Santander continua com apostas gráficas de tendência, mas reforçada com novas blue chips, com GGBR4, KROT11, IMCH3, BRFS3 e VALE5. A campeã de ensino universitário também continua na carteira da Geração Futuro, ao lado de VALE5,  LREN3, BVMF3 e RAPT4, excluindo PCAR4 e UGPA3. Uma carteira feijão com arroz, para não ficar pra trás das concorrentes.
Por último, vale citar a carteiras que continua equilibrada da Citi (CCRO3, TIMP3, UGPA3, TOTS3, EVEN3). Chama a atenção a coragem da Citi de encarar TIMP3. A Octo começou do zero o ano novo: largou todas as sugestões de dezembro para grudar no Ibovespa em janeiro: VALE5, GGBR4, SUZB5, ITUB4 e BRML3
Aos poucos, a Petrobras foi sumindo das carteiras e só permanece em duas. A probabilidade do governo ser benevolente com os lucros da petrolífera continua parecendo cada vez mais remota.
Sumiram small e medium caps que se aventuraram em dezembro, e prevaleceram blue chips.
A carteira de dez sugestões da Omar Camargo não foge muito das corretoras já analisadas (BRML3, ITUB4, CSAN3, RADL3, BRFS3, VALE3, MPLU3, OIBR4, GGBR4 e ALLL3). É interessante a escolha pela Oi, dentre as teles, e pelas ordinárias da Vale — segundo os gestores mais procuradas pelo capital externo.
A Um Investimentos se concentra no mercado interno com GRND3, CCRO3, LREN3, CIEL3 e AMBV4. É a única corretora que continua bebendo cerveja. Os chinelos também aparecem na Rico, ao lado de VALE5, VIVT4, STBP11, TBLE3, BBAS3, VLID3 e TAEE11. É a única carteira a manter a Tractebel e o Banco do Brasil (nem o próprio se sugeriu, preferindo o Bradesco).
Não sou fã dos bancos atualmente, por isso não gostei da carteira da HSBC, com dois deles, ITUB4 e BBDC4, acompanhados de PCAR4, SLCE3, GGBR4, ODPV3, BRFS3 e VALE3. Atenção à Vale ordinária pintando de novo.
Por fim, outra carteira com sugestões interessantes pontuais é da Gradual, ao incluir small caps como BEMA3 e SLED4.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Estratégias de day-trade

Uma das atividades mais fascinantes no mercado acionário é a do day-trade. Trata-se de uma atividade puramente especulativa, que difere marcadamente dos investimentos de longo prazo. O day-trade é um investimento por um dia.
As pessoas se acham mais espertas do que a média de Zecas e Joãos. Elas pensam que é fácil fazer day-trade e que vão ganhar dinheiro na moleza. Aí surge a primeira dificuldade: como se sobressair no mercado de espertalhões. O caminho óbvio é deter informações que ninguém conhece ou poder antecipá-las. Mas dificilmente poderíamos classificar tal atuação como de day-trade, porque as operações são pontuais e não recorrentes.
Todo day-trader opera tendo em vista três movimentos:
i) choque de preço positivo ou negativo (notícia boa ou ruim);
ii) tendência (de alta ou de baixa);
iii) correção (de alta ou de baixa).
É difícil lucrar com as notícias, porque todo mundo tem acesso à informação. Quando a notícia sai ou quando o mercado abre, as dez da manhã, os preços saltam e o ajuste é praticamente automático.
Também não é fácil lucrar com as tendências, principalmente porque boa parte dos movimentos de preço ocorrem quando o mercado está fechado. Na abertura, os preços saltam e a oportunidade de lucro imediato desaparece. De qualquer forma, a operação de tendência no day-trade reduz o risco do investidor, pois ele nunca fica desassistido.
A correção é o inverso da tendência. Às vezes o mercado exagera, pra cima ou pra baixo, e o trader pode aproveitar o momento para julgar os preços corretos do ativo que está operando.
Para facilitar, você pode operar com três horizontes temporais:
i) hoje;
ii) ontem;
iii) anteontem (antes de ontem).

Você precisa saber o que está fazendo. A tendência de ontem pode continuar hoje ou pode ser corrigida, assim como a do mês passado. Ou o mercado de hoje pode estar agitado e ter pouca memória. Horizontes temporais maiores também contam para as decisões, principalmente quando não há nada de significativo ocorrendo no mercado.
Por último, é preciso analisar a posição do ativo entre os demais. A sua operação pode ser:
i) isolada;
ii) de acompanhamento de pares;
iii) de acompanhamento do índice.
Ao todo temos 27 ou 54 combinações possíveis, dependendo de como você tratar a alta e a baixa. Exemplos: tendência/hoje/isolada ou tendência alta/hoje/isolada, correção/ontem/pares, notícia/hoje/pares, tendência/hoje/índice.
Com o tempo você pode classificar suas operações e descobrir quais são as mais lucrativas.