segunda-feira, 20 de maio de 2013

Bar dá lucro?

Será que abrir um bar dá lucro? Essa é uma dúvida muito popular, porque muitas pessoas gostam do negócio. Vale fazer alguns apontamentos:
— Por ser uma atividade interessante, que garante, eventualmente, prestígio e popularidade para seus donos, isso significa forte competição, porque muitas pessoas, principalmente as mais ricas, que estão interessadas no status, não se importarão em terem pequenos prejuízos ou se verem forçadas a trabalhar em ponto de equilíbrio, sem lucros.
— A distribuição dos lucros entre os competidores é muito desigual. Alguns bares são bem sucedidos em captar uma clientela cativa durante muitos anos e conseguem margens de lucro altas. Enquanto isso, muitos bares simplesmente não conseguem formar clientela grande, mesmo após anos de funcionamento.
— Os custos de se manter um bar no Brasil são muito altos, em razão, principalmente, dos gastos trabalhistas em horários alternativos e do uso limitado dos caros imóveis comerciais disponíveis para esse fim.
— É um setor que sofre muito com a flutuação da economia, por ser uma área em que as pessoas cortam seus gastos rapidamente quando precisam.
As dicas podem ser facilmente enumeradas. Não abra esse negócio se você: 1- não possui uma rede ampla de contatos e proximidade com seu consumidor; 2- não tem capital suficiente para sustentar movimento baixo nos primeiros anos; 3- não gosta muito de bares; 4- não encontrou um bom ponto.
Talvez, para quem é novo no ramo, seja interessante montar um bar de bairro, pequeno, com o seu estilo, pra ver se você se adapta às exigências duras da vida de empresário do ramo.

Mankiw resume a visão dos economistas sobre o mercado acionário

Se Gregory Mankiw é muito bem treinado em algo esse algo pode ser a didática em economia. Ele resume muito bem os achados dos economistas sobre o mercado acionário dos últimos anos: i) o mercado processa informação rapidamente; ii) boa parte dos movimentos de preços não são facilmente explicáveis; iii) manter ações é uma boa estratégia; iv) diversificação é essencial; v) mesmo pequenos investidores devem investir globalmente.
O resumo é bom, mas é temerário ao dizer que assumir a volatilidade dos prêmios de risco e as ondas de otimismo e pessimismo de mercado significa admitir que os economistas ignoram o que move o mercado. Ora, assumir que os indivíduos são sempre os mesmos, congelados ou geneticamente determinados em suas preferências, é que seria uma posição ignorante.
As ações (stocks) refletem o lado humano da economia. Dinheiro sempre traz medo e esperança, alegria e tristeza. É o canal sentimental da economia, por mais frio que pareça falar do universo das moedas. E o ser humano varia, sim, e muito, conforme a cultura e o tempo. Quem tiver dúvida, basta lembrar-se da complexidade do século XX e de suas alternâncias de expectativas em relação à tecnologia, à cultura, à democracia, aos valores e à educação.

quinta-feira, 16 de maio de 2013

Kelly e o seu gênio difícil

Há uma propriedade no sistema de apostas de Kelly que deixa qualquer um confuso. Quando estudamos uma distribuição binomial simples, como em jogos do tipo cara ou coroa, o número de caras ou coroas, conforme repetimos o experimento em várias rodadas sucessivas, se distribui de modo normal. Por exemplo, com 64 rodadas, temos 1/64 de chances de só termos caras ou outros 1/64 de termos só coroas. 6/64 de termos ao menos uma cara e outros 6/64 ao menos uma coroa. 15/64 de ao menos duas caras e 15/64 de duas coroas. E 20/64 de termos três caras e três coroas. Tudo parece simétrico e isso nos traz a ilusão de que o mundo de Kelly é igual. Mas não é.
Ainda no jogo de cara ou coroa, suponha que você aposte 20% de sua banca inicial de R$ 10,00. Se perder você cai pra R$ 8,00 e se ganhar sobe para R$ 12,00. Você joga um total de 6 rodadas e na sexta rodada você terá os seguintes resultados: R$ 2,62 (1/64 das vezes), R$ 3,93 (6/64), R$ 5,90 (15/64), R$ 8,85 (20/64), R$ 13,27 (15/64), R$ 19,91 (6/64) e R$ 29,86 (1/64). Se você somar tudo e dividir verá que o seu lucro médio é igual ao montante inicial apostado. Mas a mediana é inferior a média. Note que nesse exemplo 42/64 das vezes você terá prejuízo e apenas 22/64 terá lucro (aproximadamente 1/3 das vezes). A distribuição dos resultados de seu bankroll não é mais normal. O valor mediano é inferior a média, os valores engordam a esquerda e afinam a direita.
Como se um vento leste assoprasse. O interessante é que a cauda dos lucros máximos se alonga. É aí que se fazem os raros milionários. Mas a grande massa dos apostadores fica com prejuízos razoáveis e não vê a cor dos lucros. Incidindo comissão líquida sobre os ganhos tudo fica mais difícil, é claro. E não adianta, reforce-se, aumentar o número de jogos por temporada: é apenas fazer o vento soprar mais forte na direção contrária. Para 50 jogos, a taxa de sucesso cai pra 1/4 das vezes; para 100 jogos, vai pra 1/8; 200 jogos, 1/15; e pra 600 jogos cai pra menos de 1% de temporadas bem sucedidas.
Pra minimizar os efeitos, você deve reduzir o percentual de Kelly a ser reaplicado. Reduzindo de 20% pra 10%, a taxa de sucesso pra 50 jogos sobe pra 1/3, de 100 pra 3/10, de 200 pra 2/10 e de 600 pra 1/10. A vida fica mais tranquilo, mas nem por isso vira moleza.
Brincando de Montecarlo (10000 temporadas de 300 jogos), usando como parâmetros uma comissão líquida de 5% pra casa de apostas, um percentual de Kelly de 10% e uma acertabilidade de 20% a mais da cotação líquida (1,10-1,12; 1,50-1,55; 4,0-4,3, 10-11,8), 1/3 das vezes você terá lucro, 1/3 terá prejuízo de mais de 90% dos seu bankroll inicial e 1/12 terá lucros maiores do que 10x seu bankroll. Se você subir o percentual de Kelly pra 12%, o prejuízo de 90% passa a ser em 3/7 das vezes. E com 16% de Kelly o prejuízo de 90% passa de 2/3 das vezes. Nesse último caso, o lucro só vem em 1/6 das vezes.
Se você tiver coragem e apostar muito, sua comissão pode cair pra 2%. Mas é muito provável que sua acertabilidade, pela grande quantidade de apostas, também caia. Imaginando que seja reduzida pra 10%, um percentual de Kelly de 20% o lucro emerge menos de 1% das vezes. Reduzindo pra 12%, o lucro aparece no mesmo valor percentual, 12%, das temporadas e você leva pra casa pouco mais de 3% de chances de conseguir decuplicar seu capital inicial. Para dobrar suas temporadas com lucro, precisa reduzir o percentual apostado pra 8% e a vantagem é que provoca poucas alterações nas chances de decuplicação. A bom é que você reduz de 2/3 pra 1/3 as chances de temporadas com prejuízos maiores do que 90% do seu capital inicial. Reduzindo ainda mais o percentual aplicado, pra 5%, 1/3 das temporadas você chega no lucro e reduz ainda pouco a chance de decuplicar o capital (2,5%).

Não há reis longevos na terra da variância

Quando se fala em risco se pensa em variância. As pessoas tornam-se ricas ou pobres nesse país estranho. Geralmente mais pobres do que ricas. Faça suas simulações. Você não precisa ser um gênio da matemática para criá-las. Um programa como o Excel e uma macro relativamente simples fazem o serviço pra você. E os resultados são sempre assustadores. Você precisa ser realmente muito bom pra superá-la, deixar pra trás seus concorrentes, saber selecionar muitíssimo bem suas apostas e não se assustar com as sequências de derrotas estranhas.
Investimentos de risco realmente podem fazer milionários e é isso que mantém a indústria. Os novos ricos se acham superiores, melhores e mais espertos, mas na grande maioria das vezes, pelo menos entre aqueles que jogam honestamente, estão contando com a sorte e não sabem. Mesmo que tudo esteja certo, não se engane, lembre-se que tudo pode ser uma enorme ilusão construída, tijolo a tijolo, pelas mãos caprichosas da aleatoriedade.
Como as pessoas subestimam o bankroll necessário para investimentos de risco, de forex às opções, de apostas esportivas ao poker, a maioria dos incautos quebra e joga a toalha várias vezes, até desistir da soberba e se tornar, humildemente, um amante do risco recreativo. Mas essa caminhada pode custar caro. Em suma, não largue seu emprego para viver de risco. O normal, a regra e não a exceção, é perder tudo cedo ou tarde. Talvez o mais saudável seja acalmar as ambições e levar como uma brincadeira. E pode ser, quem saberá, que algum dia o jogo te surpreenda, torne-se sério e lucrativo.

terça-feira, 14 de maio de 2013

Quantas units preciso em meu bankroll?

Imagine que você seja um jogador medíocre e em jogos do tipo cara ou coroa acerta apenas 50% das vezes. Mas você tem juízo e paga apenas 5% de comissão de seus ganhos líquidos para as casas de apostas. Você aposta freneticamente e quer saber quantas units precisa ter na sua conta para não falir.
Você aposta em 10.000 jogos por temporada, toma um elixir da vida e aposta durante 300 temporadas. Temos um total de 3 milhões de apostas. E acha que é um valor suficiente para considerarmos como o longo prazo.
Nesse contexto, para não falir quase nunca você precisará de um bankroll de quase 800 units. Se você conseguir baixar sua comissão para 2% pode reduzir seu grau de exigência para 600 units. E na utopia de um mundo sem comissão baixe para 500 units. Pagando 10% de comissão, como muitas casas cobram, o melhor é esquecer, pois você terá lucro em menos de 3% das temporadas e para não falir terá de ter 900 units.
Mas vamos nos aproximar de novo mais ou menos da realidade. Você adora apostas ao vivo e faz em média 500 apostas por ano. É um bom volume para semiprofissionais. Além disso paga 5% de comissão e é um apostador afiado, escolhendo cotações em que você identifica erros líquidos de 10% (por exemplo, 2,42 ao invés de 2,60, 1,18 ao invés de 1,20). E você vai viver por 3.000 temporadas. Nesse caso o lucro médio da temporada gira em torno de 10 units e você precisa ter 100 units pra minimizar o risco de falência pra menos de 1% das temporadas. E você só verá a cor da bufunfa em 57% das temporadas (em torno de 1.700 de 3.000).
A brincadeira só passa a dar dinheiro pra valer quando você se torna o mestre dos magos e passa a apostar em jogos com erros líquidos de 20%. Nesse caso o lucro médio por temporada é de 40 a 50 units e você encerrará o ano no lucro 5/6 das vezes. Ademais, com 70 units de bankroll você garante 99% de sobrevivência nas temporadas e se quiser, por garantia, estender para 100 units, você ganha a imortalidade.
Claro que falar é fácil. Mesmo virando o mestre, são precisos muitos culhões pra segurar a adrenalina dos milhares. Pra lucrar R$ 100.000,00 por ano sua unit precisa ser de R$ 2.000,00 e o seu bankroll de R$ 140.000,00. Talvez você queira reduzir seu bankroll pra R$ 100.000,00, pra arredondar, nesse caso fique atento porque você vai falir em 3% das temporadas.
E nem falamos de variância por aqui.

segunda-feira, 13 de maio de 2013

Disciplina: onde está você?

A falta de disciplina, devo reconhecer, é um dos meus maiores problemas nas apostas esportivas. Tenho meus hábitos falhos, sou como um viciado em cigarros com preguiça de combater o seu vício. Adio toda semana meu programa de mudança de hábitos. São tantas práticas ruins que tenho até vergonha de admiti-las: tenho preguiça de ler as notícias esportivas, não enfrento os dados estatísticos de meu desempenho, desprezo o uso das agendas, não verifico a programação televisiva, postergo os estudos esportemétricos, relaxo minhas regras de gerenciamento de bankroll, misturo apostas por lazer, aposto em esportes que não entendo nada por mera curiosidade, sou motivado não pelo lucro mas por ter ligado a televisão e não ter nada pra fazer, caio em pegadinhas da imprensa comprada defendendo algum time, me rendo a análise ruim de comentadores idiotas, não sigo minhas regras de ouro, abandono apostas ao vivo por preguiça de cancelá-las, não suporto derrotas injustas, deixo um dia ruim me abater.
Um bom programa disciplinar deve incluir:
— Ler as notícias diariamente, uma única vez, no começo ou no final do dia. Se você olhar muitas vezes, como muitos fazem, pode desfocar de sua atividade finalística. Abra uma exceção para os jogos ao vivo que acusarem mudança de cotações, para saber se há algo novo antes de apostar.
— Escrever na sua agenda a programação televisiva que você irá acompanhar e os principais eventos esportivos do dia. Desse modo você evita o mau hábito de decidir onde apostar zappeando os canais esportivos.
— Reservar um dia, de preferência segunda-feira, para estudos de suas estatísticas de desempenho e para aprofundar-se em esportemetria. Você precisará de mais tempo do que apenas um dia por semana, é claro, até desenvolver suas metodologias.
— Se você usar o sistema de apostas de valores por units fixos, se ater ao seu estudo de risco e cogitar a hipótese de não alterar a quantidade de units em apostas diferentes. A vantagem é que você pode usar softwares ou opções nos sites de apostas que pré-estabelecem a quantidade apostada. Dessa forma você evita a tentação de mudar, pra baixo ou pra cima, o valor apostado e ficar confuso com as oscilações.
— Se você o sistema de kelly, ser religioso no percentual aplicado e só alterar tal valor após determinado período (por exemplo, no começo do trimestre ou no começo do mês).
— Anotar e colecionar os nomes dos comentadores e analistas esportivos que você confia e aqueles que despreza.
— Ser realista na administração de seu tempo. Quando você começa a pesquisar ligas de futebol do Azerbaijão, da Guiana ou de Cingapura pode ser um sinal que você está desfocado. Se você tentar abraçar o mundo com certeza fará um outro apostador feliz ou uma casa de apostas ainda mais rica.
— Só manter uma aposta ao vivo se você estiver ao vivo.
— Criar uma oração em que você reafirme seus princípios e compromissos com as apostas esportivas (Eu me informarei antes do jogo, me concentrarei ao vivo, serei fiel às regras de gerenciamento de bankroll, aceitarei as derrotas como normais, focalizarei minha atenção nos esportes e campeonatos que conheço, me comprometerei ao estudo contínuo e manterei um diário). Repita essa oração quando acordar e se deitar.


Seja rápido na inversão de seu raciocínio

É difícil explicar as raízes humanas da teimosia. Talvez ela ocorra porque é dolorido admitirmos o erro: pode ferir nossa autoestima. É gostoso pensarmos que estamos sempre certos e vivendo sob as melhores condições possíveis. Mas é péssimo para as apostas esportivas. A teimosia cobra um preço alto em nosso desempenho.
Você precisa treinar mudar de opinião rapidamente. Tente fazer exercícios cotidianos. Decida algo (a cor de uma roupa, uma comida, um programa de televisão) e se obrigue a alterar sua escolha dez minutos depois. Diminua esse tempo paulatinamente, todos os dias, até fazê-lo o mais rápido possível. É preciso não misturar a capacidade de decidir por um caminho diferente da mera confusão ou indecisão. É preciso estar a postos para a busca permanente de alternativas, de modo ligeiro.
Eu, confesso, não sou bom nisso. Costumo ficar congelado em decisões passadas e, mesmo vendo o barco afundar, fico torcendo para que o óbvio não ocorra. Quando o castelo começa a desmoronar você não pode ficar assistindo a destruição de dentro de seu camarote. Precisa reagir. Uma reação rápida é sinal de esperteza e inteligência.
Claro que falar é fácil. A maioria dos processos mentais nas apostas é semelhante à história do sapo que morre num caldeirão de água quente aquecido aos poucos e não é capaz de reagir perante as pequenas gradações de acréscimo de calor. Nas apostas, a gente perde aos poucos. É necessário um treinamento mental rigoroso para aprenderemos a reverter decisões rapidamente. Isso é bem mais difícil do que tomar decisões rápidas quaisquer e à esmo — algo que pode envaidecer. Mas reconhecer o erro, de instantâneo, não envaidece ninguém, pelo contrário, apenas nos humilha e nos lembra o quão difícil é a vida e quão burros nós somos na realidade, ao repetirmos pela enésima vez o mesmo erro. Pode ser duro para a alma, mas é muito bom para o bolso.